No passado dia 8 de fevereiro, António José Seguro venceu as eleições para a Presidência da República Portuguesa com 67% dos votos, derrotando o seu adversário, André Ventura, que obteve os restantes 33%. Trata-se da vitória mais expressiva alguma vez registada numa eleição presidencial em Portugal, em termos de números de votos para um candidato.

A campanha da segunda volta ficou marcada por uma narrativa fortemente polarizada, assente na oposição entre dois modelos políticos e discursivos. Por um lado, António Seguro apresentou-se como o candidato da moderação, agregador e defensor da democracia liberal, por outro, André Ventura construiu uma campanha baseada num discurso anti-sistema, disruptivo e identitário, apelando a um “Portugal dos portugueses”, no qual os estrangeiros deveriam, segundo essa lógica, contribuir para as contas do  Estado e não “viver à custa do Estado”, bem como adaptar-se aos valores e princípios nacionais.

Esta oposição foi bastante amplificada pela comunicação social e replicada no debate público, sendo frequentemente simplificada numa dicotomia entre “democracia” e “extremismo”. Contudo, uma leitura mais atenta dos resultados eleitorais, bem como dos discursos e das narrativas produzidas ao longo da campanha, levanta questões mais complexas sobre o significado desta vitória, o papel do medo e da moralização no comportamento eleitoral, e a forma como conceitos como unidade, democracia e identidade nacional foram mobilizados e instrumentalizados por diferentes atores políticos.

Partindo deste contexto, este texto propõe-se a analisar criticamente os resultados eleitorais da segunda volta das eleições presidenciais, articulando-os com os discursos dos candidatos, a cobertura mediática e as percepções construídas no espaço público, procurando compreender não apenas quem venceu, mas porquê.

Análise dos Números

Comecemos, então, pela análise dos números. Nunca, em Portugal, um candidato foi tão votado como António José Seguro. Este facto, por si só, tem de significar algo: apesar de uma elevada taxa de abstenção, a obtenção deste recorde não pode ser entendida como um mero acaso estatístico.

Ora vejamos, é que segundo a narrativa do candidato André Ventura, estas eleições representariam uma luta contra todo o sistema político português, sendo que o voto em António Seguro não corresponderia a um verdadeiro apoio ao candidato vencedor, mas antes a um voto contra o próprio André Ventura. Esta leitura, contudo, levanta um paradoxo evidente. É que se o voto em Seguro é, essencialmente, um voto contra Ventura, então mais de 65% dos eleitores portugueses posicionaram-se explicitamente contra André Ventura. Mais ainda: se esse voto “contra Ventura” resulta no maior número de votos alguma vez obtido por um candidato presidencial em Portugal, o que nos diz isso, afinal, sobre a força e a legitimidade política da sua candidatura? Estas são, em rigor, perguntas retóricas, pois a resposta é clara: existe uma contradição profunda no discurso anti-sistema que Ventura procura sustentar.

A ideia de que André Ventura estaria a lutar contra “todo o sistema político português” levanta igualmente questões fundamentais. A primeira delas é simples: quem vota, afinal? O sistema ou o povo português? A resposta é evidente: vota o povo. E esse mesmo povo demonstrou, de forma inequívoca, não estar com André Ventura. Independentemente de os eleitores terem votado em António Seguro por convicção própria ou, como o próprio Ventura sugere, por rejeição da sua candidatura, o resultado é politicamente incontornável.

Se o povo português é quem decide e se essa decisão se traduz numa rejeição clara de um candidato, então a narrativa de que Ventura representa a vontade popular contra um sistema opressor torna-se insustentável. Pelo contrário, o resultado eleitoral sugere que foi precisamente o eleitorado, esse mesmo povo que Ventura invoca,  quem expressou, de forma clara e massiva, quem não deseja ver como Presidente da República.

Análise do discurso de António José Seguro

Passemos então à análise dos discursos de cada candidato, começando por António Seguro. A sua campanha assentou num discurso de união entre os portugueses, frequentemente enquadrado na ideia de que não existiriam portugueses “de direita” ou “de esquerda”, mas sim cidadãos chamados a unir-se em torno de valores comuns como a democracia, a moderação e o respeito institucional.

Neste enquadramento, Seguro apresentou a eleição como uma escolha moral e política clara. Para o candidato, votar nele significava votar em prol da democracia, enquanto a alternativa representada por André Ventura era sistematicamente associada a um risco para os princípios democráticos. Ao classificar o seu adversário como anti-democrático, Seguro não se limitou a disputar o espaço político, delimitou também o campo da legitimidade democrática, sugerindo que determinadas opções eleitorais estariam, à partida, fora desse campo.

Este tipo de discurso teve um duplo efeito. Por um lado, reforçou a imagem de Seguro enquanto figura moderada, responsável e agregadora, capaz de representar a estabilidade institucional e a continuidade democrática. Por outro, contribuiu para a construção de uma fronteira simbólica entre o “campo democrático” e aquilo que foi apresentado como uma ameaça a esse mesmo campo, reduzindo a eleição a uma escolha binária entre democracia e anti-democracia.

Ao fazê-lo, Seguro não apenas procurou mobilizar eleitores indecisos ou moderados, como também atrair o apoio de diferentes setores do espectro político, incluindo forças que, em circunstâncias normais, dificilmente convergiriam num mesmo candidato. A união proposta não foi, portanto, apenas nacional, mas também partidária e institucional.

Análise do Discurso de André Ventura e a Questão da Imigração

Por outro lado, André Ventura apresentou-se como um candidato claramente mais disruptivo e assumidamente anti-sistema. É precisamente neste ponto que a sua estratégia discursiva revela os seus limites. Se, por um lado, os temas levantados por Ventura, em particular a imigração, explicam em grande medida a sua afirmação política, permitindo-lhe consolidar-se como líder da oposição e alcançar o segundo lugar nas eleições presidenciais, por outro, esses mesmos argumentos parecem insuficientes para lhe permitir ultrapassar esse patamar, sobretudo num contexto de eleição presidencial.

A questão da imigração tem sido um dos eixos centrais do discurso de André Ventura ao longo das várias eleições em que participou, incluindo esta. Entre os seus principais argumentos destaca-se a ideia de que os imigrantes constituem um peso para o Estado português, vivendo à custa do sistema de proteção social e usufruindo de benefícios sem uma contribuição proporcional. Este enquadramento, apresentado de forma simplificada e emocional, mostrou-se eficaz junto de uma parte do eleitorado, mas revelou-se profundamente vulnerável quando confrontado com dados objetivos.

De acordo com dados divulgados pelo Jornal de Notícias, que cita o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, os imigrantes contribuíram, em 2024, com 3.645 milhões de euros para a Segurança Social, o valor mais elevado de sempre e mais do dobro do registado quatro anos antes. No mesmo período, as prestações sociais pagas a cidadãos estrangeiros ascenderam a 687 milhões de euros, o que significa que os imigrantes contribuíram cerca de cinco vezes mais do que aquilo que receberam.

Estes números confirmam uma tendência consistente. Em seis anos, o número de estrangeiros residentes legais em Portugal mais do que duplicou, passando de 480.300 em 2017 para mais de um milhão em 2023, segundo dados da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA). Só em 2023, a população estrangeira residente aumentou 33,6%, mantendo-se, ainda assim, uma contribuição líquida positiva para a Segurança Social.

Este tipo de dados foram amplamente divulgados pela comunicação social portuguesa durante o período eleitoral, tanto nos meios tradicionais como nos digitais, contrariando de forma sistemática a narrativa de André Ventura de que a imigração representa um custo excessivo para o Estado ou um dos principais problemas estruturais do país. Perante estes números, torna-se difícil sustentar a tese de que os imigrantes são um peso para os cofres públicos ou uma ameaça ao equilíbrio do sistema social.

É neste ponto que se evidencia a fragilidade da estratégia comunicacional de Ventura num contexto presidencial. Embora o discurso anti-imigração funcione como um poderoso instrumento de mobilização política e possivelmente como alavanca para ambições futuras ao cargo de primeiro-ministro ele parece não encontrar eco junto da maioria do eleitorado quando está em causa a escolha de um Presidente da República. A maioria dos portugueses não se identifica com a ideia de que a imigração seja o problema central do país, reconhecendo antes falhas estruturais no funcionamento das instituições, na governação e nos serviços públicos, problemas que pouco ou nada têm que ver com a presença de imigrantes.

Assim, ao insistir na imigração como um dos pilares centrais do seu discurso, André Ventura acabou por se tornar um alvo relativamente fácil de desmontar, sobretudo quando confrontado com dados objetivos e amplamente divulgados. Apesar da sua reconhecida capacidade retórica, esta opção estratégica contribuiu para limitar o seu alcance eleitoral e reforçar a perceção de que o seu discurso, embora mobilizador, não é suficientemente abrangente nem credível para uma função que exige representação nacional e institucional.

Posto isto, parece evidente que a perceção pública, os discursos políticos e a cobertura mediática, enquadrados nestes termos, acabaram por conduzir de forma relativamente natural a uma vitória expressiva de António Seguro e a uma derrota de André Ventura,  derrota essa que o próprio enquadra como uma luta contra todo o sistema político português.

Portugal terá, assim, o presidente que escolheu. Ou, visto de outra perspetiva, não terá o presidente que claramente não quis. Vence a democracia enquanto expressão da vontade popular; vence Seguro enquanto figura agregadora e institucional. Mas, de forma paradoxal, vence também Ventura, pelo menos no plano discursivo, tentando colar ao resultado uma mensagem de supremacia política, declarando que “lidera a direita em Portugal” o que com rigor, não se pode afirmar a partir de uma eleição presidencial que é uma eleição individual.

Resta saber se esse resultado representa um teto eleitoral ou uma base de crescimento. O que parece claro é que André Ventura não aponta verdadeiramente ao cargo de Presidente da República, mas sim ao de Primeiro-Ministro. As presidenciais funcionaram, neste sentido, mais como um ensaio geral e um teste de mobilização do que como um objetivo final. As próximas eleições dirão se esta estratégia lhe permitirá alargar a sua base eleitoral ou se, pelo contrário, confirmará os limites de um discurso que, embora eficaz na oposição, se revela insuficiente quando confrontado com a necessidade de representar o país no seu todo.

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